Você consegue identificar quantas fases já atravessou desde que recebeu o diagnóstico do seu filho?
Alguns estudos e reflexões sobre a experiência do diagnóstico se aproximam das fases do luto. Embora sejam experiências diferentes, elas podem compartilhar sentimentos e reações diante de uma realidade que transforma profundamente a vida de uma família.
Mas como essas fases podem se manifestar na maternidade atípica?
1.Negação
Seu filho apresenta alguma dificuldade no desenvolvimento, como a ausência da fala, e um sinal de alerta se acende.
Mas pensar na possibilidade de que algo esteja acontecendo parece impossível. A mente tenta afastar essa ideia.
“Não, ele só está um pouquinho atrasado… O filho de uma amiga também demorou para falar e hoje ninguém aguenta tanta tagarelice!”
O humor pode ajudar a aliviar a tensão, mas, por trás dele, pode existir a dificuldade de acreditar que aquela possibilidade seja real.
2.Revolta
Por que isso está acontecendo comigo? Por que com o meu filho?
A indignação pode aparecer acompanhada da busca por respostas, da tentativa de encontrar culpados e, muitas vezes, da culpa direcionada a si mesma.
A mãe começa a se questionar: “Será que fiz alguma coisa errada durante a gravidez? Será que poderia ter percebido antes? Será que falhei em alguma coisa?”
É uma fase em que a dor pode se transformar em raiva, frustração e até ressentimento. Às vezes, essa revolta é direcionada à vida, aos profissionais, à família ou à própria sociedade, que tantas vezes não está preparada para acolher a diferença.
E sentir tudo isso não faz de você uma mãe ruim. Faz de você alguém tentando compreender uma realidade que talvez nunca tenha imaginado viver.
3.Tristeza e sofrimento emocional
A tristeza pode chegar acompanhada de medos, inseguranças e muitas perguntas sobre o futuro.
A mãe pode sofrer ao pensar nas dificuldades que o filho enfrentará, nas barreiras que encontrará e na maneira como a sociedade poderá tratá-lo. Pode sentir medo de não estar presente quando ele precisar, de não saber como ajudá-lo ou de não conseguir protegê-lo de todas as dores do mundo.
Também pode existir um luto pelas expectativas que foram construídas antes do diagnóstico, pelos planos imaginados e pela maternidade que ela acreditava que viveria.
E aqui é importante lembrar: não é o filho que precisa ser lamentado, mas a dor, as incertezas e a necessidade de reconstruir expectativas diante de uma nova realidade.
Essa tristeza merece acolhimento, não julgamento. Se for intensa, persistente ou começar a comprometer a vida cotidiana, buscar ajuda profissional é fundamental.
4.Aceitação
A aceitação não significa que todas as dúvidas desapareceram, que os desafios ficaram fáceis ou que a mãe nunca mais sentirá medo.
Significa, pouco a pouco, conseguir olhar para o filho para além do diagnóstico.
É quando a vontade de vê-lo desenvolver suas potencialidades, à sua maneira e no seu tempo, começa a ocupar mais espaço. As pequenas conquistas passam a ser celebradas com uma alegria imensa. Os desafios continuam existindo, mas a mãe começa a reconhecer a própria força e a construir novas formas de enfrentá-los.
É descobrir possibilidades onde antes só havia incertezas. É aprender, adaptar-se, buscar apoio e perceber que a vida ainda pode ser bonita, mesmo que seja diferente daquela que havia sido imaginada.
E, aos poucos, nasce a sensação de que as coisas podem ficar bem. Não porque tudo será perfeito, mas porque vocês estão aprendendo a caminhar juntos.
Mas existe algo que você precisa saber:
Essas fases não são uma regra, nem acontecem necessariamente nessa ordem. Algumas mães podem se reconhecer em todas elas; outras, em apenas algumas. Há sentimentos que reaparecem em momentos diferentes, como diante de um novo desafio, de uma mudança escolar ou de uma preocupação com o futuro.
Não existe um prazo para aceitar, nem uma maneira certa de sentir.
E você não precisa atravessar tudo isso sozinha.
Conversar com alguém de confiança, compartilhar suas angústias e procurar ajuda profissional pode tornar essa jornada mais leve. Um psicólogo pode ajudar você a compreender seus sentimentos, elaborar suas dores e encontrar recursos para cuidar também de si mesma.
Porque, enquanto você cuida do desenvolvimento do seu filho, você também merece ser cuidada.
E se hoje você ainda está tentando entender tudo o que sente, respire. Você não precisa ter todas as respostas agora.
Eu Sei. Você não precisa caminhar sozinha.
Alessandra Rocha
Psicóloga e psicanalista