RE. Ensaio

Liberdade

O que significa, de fato, ser livre?

4 min de leitura
Alessandra Rocha diante do espelho

Hoje pela manhã, uma situação inusitada me incomodou bastante.

Uma pessoa do meu convívio, com a intenção de me valorizar, pediu-me um presente.

Pode parecer estranho dizer que isso me incomodou. Afinal, eu adoro dar presentes. Sou daquelas pessoas que procuram, pensam, escolhem, imaginam a reação do outro. Gosto de encontrar alguma coisa que faça sentido para aquela pessoa.

Então, o que exatamente me incomodou?

Não foi o presente.

Foi o pedido.

Fiquei pensando sobre isso e cheguei a uma conclusão que diz muito sobre mim:

não há nada mais conflituoso para mim do que sentir que não tenho liberdade de escolha.

Isso me tira do sério.

E essa pequena situação me levou a pensar em algo muito maior: o que significa, de fato, ser livre?

Liberdade pode ser ir e vir, escolher onde estar, com quem estar, o que fazer e o que dizer. Mas também está em coisas muito mais sutis: poder dizer não, mudar de ideia, fazer alguma coisa hoje ou amanhã, respeitar o próprio ritmo.

E existe uma dimensão ainda mais complexa da liberdade: perceber que, muitas vezes, somos nós mesmos que não nos permitimos escolher.

02Somos livres quando escolhemos?

  1. Podemos escolher uma profissão porque era aquilo que esperavam de nós.
  2. Permanecer em um relacionamento porque temos medo de decepcionar.
  3. Aceitar um convite porque não conseguimos dizer não.
  4. Trabalhar excessivamente porque aprendemos que descansar é sinal de preguiça.

Podemos acreditar que estamos fazendo escolhas quando, na verdade, estamos repetindo caminhos construídos muito antes de termos consciência deles.

Quando escolho, estou realmente escolhendo ou apenas obedecendo a algo que ainda não consigo reconhecer em mim?

É aqui que liberdade encontra o autoconhecimento.

Conhecer nossa própria história, nossos desejos, medos, necessidades e repetições não nos torna absolutamente livres. Somos atravessados pela nossa história, pelos vínculos, pela cultura, pelas expectativas sociais e por processos inconscientes que nem sempre percebemos.

O autoconhecimento, no entanto, pode ampliar o espaço entre aquilo que nos acontece e aquilo que fazemos com o que nos acontece.

03E onde entra a psicologia?

Para mim, uma das tarefas mais bonitas de um processo psicoterapêutico é justamente essa: ampliar a possibilidade de escolha.

Na psicanálise, podemos pensar no profissional como alguém que exerce, em determinados momentos, uma espécie de função de ego: oferecendo suporte, ajudando a organizar pensamentos, dando contorno ao que ainda está confuso e favorecendo o acesso àquilo que pode se tornar consciente.

Mas existe algo fundamental nessa relação:

o psicólogo não deve escolher pelo paciente.

Não cabe ao profissional dizer qual caminho é o certo, qual decisão deve ser tomada ou qual vida deve ser vivida.

Sua função não é produzir dependência,

mas favorecer autonomia.

E isso também é uma questão ética. Um bom processo terapêutico não deveria nos tornar cada vez mais dependentes de quem nos acompanha. Deveria nos ajudar, pouco a pouco, a sustentar nossas próprias escolhas.

Quanto mais conheço a mim mesma, mais consigo distinguir o que desejo daquilo que aprendi que deveria desejar?

04Liberdade também dá trabalho

Liberdade não é apenas poder escolher. É também sustentar as consequências das escolhas, suportar a possibilidade de desagradar e aceitar que ninguém poderá garantir que fizemos a escolha perfeita.

Por isso, em algumas situações, pode ser mais confortável não escolher. Quando alguém decide por nós, também podemos transferir para essa pessoa a responsabilidade pelo resultado.

Quando escolhemos, precisamos nos haver com aquilo que escolhemos.

TerritórioMulheres em transição

RE.Recomeçar

Isso ganha uma dimensão especial quando pensamos nas mulheres em transição.

Uma mudança de cidade, profissão, relacionamento, maternidade ou fase da vida nos coloca diante de uma pergunta que vai muito além de “o que vou fazer agora?”.

Ela nos coloca diante de outra questão:

O que, entre tantas possibilidades, eu realmente quero escolher?

E talvez seja justamente aí que recomeçar encontre a liberdade.

Não apenas começar de novo,

mas começar novamente a escolher.

Com mais consciência, mais autoria e, quem sabe, mais respeito pelo próprio tempo.

Quais escolhas da sua vida ainda são realmente suas?

Porque, no fim, uma das formas mais profundas de liberdade pode ser simplesmente esta:

poder dizer “eu escolho” e reconhecer que essa escolha, tanto quanto possível, é realmente minha.

Alessandra Rocha

Psicóloga e psicanalista

Alessandra Rocha

Quer conversar sobre as suas escolhas?

Atendimento online, com escuta sensível, ética e respeito à sua história — no Brasil ou no exterior.

Agendar conversa