EU SEI. Série · #01 Maternidade real

Eu sei.

É possível amar profundamente um filho e, ao mesmo tempo, sentir-se exausta.

4 min de leitura
Alessandra Rocha, psicóloga e psicanalista

Imagine só que, num dia qualquer, enquanto você assiste despretensiosamente a um filme de uma das suas escritoras preferidas, uma cena, um diálogo, uma pequena frase faz você parar.

E, de repente, uma ideia.

Foi exatamente assim que aconteceu comigo.

01Uma ideia

O filme

Assistindo a A Filha Perdida, filme dirigido por Maggie Gyllenhaal e baseado no romance homônimo de Elena Ferrante, tive uma ideia:

falar sobre maternidade sem romance, sem firulas, sem a obrigação de torná-la bonita o tempo todo.

Falar sobre a maternidade real.

02De onde ela veio

Talvez essa ideia tenha chegado até mim pela junção de algumas coisas que já vinham acontecendo.

  1. 01O livro

    Primeiro, porque escrevi um capítulo para o livro Psicologia Intercultural na prática clínica para brasileiros no exterior, sobre a atuação do psicólogo intercultural no contexto da maternidade atípica.

    Esse tema me atravessou profundamente e se tornou um dos territórios que quero continuar estudando, escutando e refletindo.

    Alessandra Rocha segurando o livro Psicologia Intercultural
  2. 02A palestra

    Segundo, porque, recentemente, tive a oportunidade de transformar parte dessas reflexões em uma palestra sobre mães atípicas brasileiras vivendo longe de casa.

    Falar sobre isso, ouvir outras histórias e perceber a potência desse encontro me deu ainda mais vontade de continuar.

  3. 03O filme

    E, finalmente, veio o filme.

03Eu sei.

Uma jovem mãeNaquela linda ilha grega, uma jovem mãe, em férias com a família, vivia de perto a intensidade da maternidade.

LedaDo outro lado, uma mulher mais madura, Leda, observava tudo com a acuidade de quem já havia vivido aquela experiência.

Em determinado momento, Nina revela o quanto está exausta. A filha exige sua atenção o tempo todo, ela não consegue dormir, sente-se esgotada.

E Leda reconhece aquilo.

Eu sei.

Foi essa ideia que ficou comigo.

Porque talvez exista algo muito poderoso em uma mulher poder dizer a outra:

Eu sei.

De uma mulher para outra

Não é preciso explicar tudo.

Não é preciso justificar o cansaço.

Não é preciso transformar o amor em uma prova de resistência.

04Uma coisa não anula a outra

#01É possível amar profundamente um filho e, ao mesmo tempo, sentir-se exausta.

#02É possível sentir alegria e, em outros momentos, desejar silêncio.

#03É possível estar absolutamente apaixonada por aquela criança e, ainda assim, reconhecer que existem dias em que a maternidade pesa.

Uma coisa não anula a outra.

A maternidade é atravessada por sentimentos que podem parecer contraditórios, mas que coexistem.

  • Amorecansaço.
  • Encantamentoeirritação.
  • Gratidãoedesejo de ter um pouco de espaço para si.
  • Presençaevontade de desaparecer por algumas horas.

E reconhecer essa ambivalência não significa amar menos.

Talvez signifique apenas poder falar sobre a maternidade como uma experiência humana — e não como um lugar onde só cabem sentimentos socialmente autorizados.

05Maternidade atípica

Quando pensamos na maternidade atípica, essa conversa ganha ainda outra camada.

Porque existem experiências de maternidade marcadas por uma demanda intensa de cuidado, por uma vigilância constante, por desafios físicos, emocionais, familiares e sociais que podem tornar o cotidiano especialmente exigente.

Eu sei.

Eu sei porque também sou mãe atípica.

Eu sei o quanto isso pode exigir física e psicologicamente.

E talvez seja justamente por saber que quero abrir este novo território de escuta.

06Um território de escuta

Um território para falar sobre aquilo que nem sempre conseguimos dizer.

  1. Sobre o cansaço.
  2. Sobre o amor.
  3. Sobre a culpa.
  4. Sobre a solidão.
  5. Sobre a força.
  6. Sobre as perdas e os ganhos.
  7. Sobre quem somos quando nos tornamos mães — e sobre quem ainda queremos ser para além da maternidade.

Sem julgamentos.

Sem romantização.

Sem a obrigação de dar conta de tudo.

Apenas com espaço para dizer:

Eu sei.

E, talvez, descobrir que não estamos sozinhas.

Alessandra Rocha

Psicóloga e psicanalista

Alessandra Rocha

Um espaço para dizer o que pesa.

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